quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Resenha do texto Fundamentos de Metodologia Científica: um guia para a iniciação científica das autoras BARROS, Aidil; LEHFEL, Neide Aparecida.

O texto “Natureza Humana: Conhecimento e Saber”, das professoras Aidil Barros e Neide Aparecida Nehfel, procura discutir numa perspectiva científica a natureza cognitiva da produção material e simbólica da existência do ser humano e, como isso ocorre através da elaboração do conhecimento e do saber. Essa reflexão está organizada numa seqüência que inicialmente a percepção das autoras com relação a natureza biológica e cultural dos seres humanos, passando por uma abordagem sobre o conceito de conhecimento, seguido por uma ligação entre a natureza humana e a produção histórica do conhecimento e a divisão deste em seus diversos níveis, concluindo o texto com uma abordagem sobre a relevância destas análises na formação inicial de um estudante de graduação. Com esta estrutura ela traz informações valiosas para o fortalecimento do processo da formação acadêmica como será observado na descrição a seguir.


O homem sendo analisado como um ser essencialmente cognitivo tem sua existência entendida como um processo de interação entre a sua condição biológica e a produção cultural historicamente construída em sociedade. A capacidade que ele possui em estabelecer relações entre o mundo dos objetos concretos (sensível) e os componentes do mundo abstrato (reflexivo) é que o torna único entre os seres existentes no universo, pois, apenas ele é o capaz de dar sentido e significado às ações e relações que materializam a sua existência.

Sendo capaz de produzir e reproduzir culturalmente sua existência, o homem registra suas ações permitindo que elas possam ser aprendidas e transformadas num processo ininterrupto de construção do conhecimento. Este se estabelece como a capacidade humana de relacionar, ordenar e sistematizar ações e sensações que dão significado à reprodução material e simbólica da existência humana e sua vivência em sociedade. Tal reprodução se dá a partir dos desafios e inquietações que vão surgindo nas relações em que os homens vão estabelecendo com o meio natural e social. Produzir conhecimento é antes de tudo dar respostas ordenadas a problemas que desestabilizam a manutenção da vida humana.

Procurando compreender como se processou o surgimento e a reprodução da sua existência, o homem utilizou diversas maneiras para construir respostas a tais indagações ao longo de sua história. Desde as explicações mais remotas nas épocas primitivas e os cultos das forças da natureza, passando pelas explicações mitológicas, religiosas, científicas e ideológicas, os homens vêm construindo saberes e conhecimentos que visam saciar as suas inquietações. Para tanto eles utilizam instrumentos teóricos e práticos como suportes na construção do saber.

Os questionamentos, as respostas e explicações a respeito da reprodução da vida e existência dos homens são histórica e sócio-culturalmente construídas, haja vista, a reprodução da vida humana ganhar sentidos e significados diferentes dentro das diversas civilizações.

Os homens enquanto seres históricos e culturais constroem e reproduzem a sua existência através de um processo de comunicação e produção do conhecimento que relaciona o individuo ao coletivo social a que ele pertence, num diálogo que envolve a prática, a reflexão sobre a mesma, e a intervenção novamente sobre ela com um novo significado. Tal ação demonstra o processo de maturação das relações humanas na produção do conhecimento, sendo possível dividi-la em alguns níveis a partir do seu grau de percepção e complexidade. Dentre os níveis de produção do conhecimento estão o conhecimento sensível ou senso comum, o filosófico, o teológico e o científico.

O conhecimento sensível, também chamado de conhecimento vulgar, é aquele produzido no fazer empírico do cotidiano. Por não possuir m caráter reflexivo e tecnicamente elaborado, é visto como um conhecimento produzido ao acaso, de maneira espontânea, sem a preocupação de buscar a essência da ação. Tal conhecimento possui algumas características que o diferencia dos outros, pois ele é considerado: sensitivo, superficial, subjetivo, destituído de método o assistemático, além de ser impregnado de projeções psicológicas.

O conhecimento filosófico traz como aporte a condição da filosofia como orientadora das indagações que norteiam as ciências, inclusive problematizando a produção do conhecimento e do saber historicamente construídos. A filosofia contemporaneamente visa compreender de modo reflexivo e crítico todos os aspectos da sociedade, sendo estes abordados a partir de uma argumentação lógica imbuída de conflitos e contradições inerentes ao próprio processo de construção do conhecimento. Desse modo, a verdade para o conhecimento filosófico é sempre transitória, cabendo ao investigador ou pesquisador buscar novos ângulos para compreender o conhecimento.

O conhecimento teológico é voltado para compreender a totalidade da relação entre o ser humano e o mundo metafísico, numa busca incessante por encontrar a essência da origem de tudo, com um olhar direcionado para um princípio criador (Deus) externo à sua existência material. É na essência deste ser que se encontra uma lógica para fundamentar a existência do mundo das coisas sensíveis.

O conhecimento científico assim como os demais se propõe a buscar respostas a indagações e fenômenos diversos. Contudo, este se diferencia dos demais por se fundamentar num processo reflexivo mais complexo, elaborado de forma metódica e sistemática, expressão típica e essencial da prática científica. Vale ressaltar, que em muitas ocasiões o proceder científico parte de inquietações trazidas pelo conhecimento sensível, que ao serem assumidos e trabalhados metódica e sistematicamente, ganham um status de objeto científico, exigindo um olhar investigativo mais minucioso e analítico. Para construir e ganhar tal status, o objeto do conhecimento transforma-se num problema específico que exigirá uma metodologia adequada de estudo para atingir os objetivos estabelecidos. Tais condições são pautadas em um processo de ordenação de questionamentos que produzem um caminho a seguir, como pode ser observado nas perguntas a seguir: O que conhecer?; Por que conhecer?; Como conhecer? Com que conhecer?; Em que local conhecer?.

É na objetividade dos resultados que se fundamenta o proceder do conhecimento científico, que para atingir um bom grau de satisfação deve exigir padrões adequados de competência intelectual, de elaboração do raciocínio e de ordenação lógica do pensamento, expressos nos roteiros de estudo e pesquisa e na apresentação dos resultados.

Ao analisar os níveis de produção do conhecimento e os detalhes que caracteriza cada um, o estudante de graduação deve perceber que o ser humano é questionador por natureza, pois, ele nunca está completamente satisfeito com as respostas que encontra para suas indagações, seja no campo material ou simbólico de reprodução da sua existência. Compreendendo essa condição investigativa inata ao ser humano, o graduando deverá assumir uma postura questionadora, atuando como um pesquisador que interage com olhar crítico e metódico perante a realidade que o cerca, sem, contudo perder de vista a sua capacidade de contemplação trazida pela filosofia, pela arte, pela religião, pela tecnologia, e mesmo pela ciência, no processo de construção das relações que constituem o mundo.

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